LGBT

“Revolução Sexual”, retorno ao gênero, pós-modernismo e despolitização


Os anos 80 são, nos Estados Unidos, marcados pela crise econômica e o reforçamento do moralismo mais conservador, simbolizado pelo desenvolvimento do movimento “pró-vida” (anti-abortista, portanto também anti-feminista e extremamente lesbofóbico). É a época do auge do movimento lésbico (feminista, separatista ou radical), e ao mesmo tempo de uma “segunda revolução sexual” que desde este mesmo movimento lésbico, se pode ler mais precisamente como um retrocesso teórico e prático, com um retorno ao pensamento masculino-gay e uma releitura despolitizante do conceito de gênero.

No interior do movimento feminista, estala um forte debate, cujo ponto álgido é a Conferência anual de Barnard College de 1982, que se propunha analisar a “política sexual” do movimento. Por um lado, se desenvolve uma linha “liberal” em torno à sexualidade, com reflexões como a de Gayle Rubin. Segundo sua análise, o problema radica na hierarquização das sexualidades, situando-se arbitrariamente no ápice a heterossexualidade reprodutiva e monogâmica, enquanto que as sexualidades “desviadas” são discriminadas e condenadas. Desde este ponto de vista, o importante é conseguir uma aliança de todas as “minorias sexuais” que de uma ou outra maneira subvertem a heterossexualidade. Esta análise reduz uma vez mais o lesbianismo à sexualidade, e a sexualidade lésbica a uma sexualidade “diferente” entre muitas. Ou seja, se desvincula totalmente o questionamento político global da sociedade originalmente proposto desde o lesbianismo feminista, radical ou separatista. Indo ainda mais longe nesta direção “pró-sexo” liberal, algumas lésbicas como Pat Califia e o grupo S/M Samois não duvidam em reivindicar abertamente o sadomasoquismo lésbico como uma maneira de empoderar-se por meio da sexualidade. Numerosas lésbicas e feministas denunciaram vigorosamente esta tendência como anti-feminista, por basear-se na tradicional erotização patriarcal da violência e da dominação. Audre Lorde, por exemplo, afirma: “Como mulher pertencente a uma minoria, sei perfeitamente que a dominação e a submissão não são temas próprios do dormitório.” Sem recusar nem a sexualidade, nem a busca do prazer, nem o erotismo, com ela, várias autoras consideram que voltar a reger-se novamente por padrões de conduta sexual típicamente masculinos — e gays — apresentados como o “verdadeiro sexo quente”, demonstra uma queda da auto-estima das lésbicas, que há anos se propunham muito mais uma busca sexual diferente, e congruente com suas aspirações feministas. Colocam que o uso da pornografia e prostituição, embora sejam “lésbicas”, somente reforçam um imaginário patriarcal e multiplica as ambições da indústria do sexo, conduzindo por fim à exploração de mulheres e lésbicas por outras lésbicas.

A esta primeira tendência, se une outra, com origens distintas — não a análise da sexualidade senão que do gênero — mas com bastante concordâncias: o pensamento queer, popularizado pela norte-americana Judith Butler e a italiana estabelecida nos Estados Unidos Teresa de Lauretis. Teresa de Lauretis inventou o termo “teoria queer”, porém o abandonou e denunciou que o mesmo agora representa uma tendência neoliberal. Com forte influência pós-modernista e do pensamento gay e psicanalítico, Butler afirma que o gênero seria uma “performance”, algo fluido, modificável e múltiplo, o que permitiria às mulheres “jogar” sobre um registro identitário variado e modificável. As e os “transgêneros”, as e os travestis, as e os transsexuais, os drags-kings e as drags-queens, e inclusive as e os heterossexuais dissidentes viriam a romper a trágica bipolaridade dos gêneros e a questionar sua “naturalização”. Existem algumas confluências entre parte do movimento queer e as contribuições das lésbicas e feministas não-brancas, na medida em que ambas correntes possuem interesse na crítica pós-modernista do sujeito “universal” do pensamento “moderno”, que esconde exclusivamente os interesses dos homens brancos, heterossexuais e economicamente privilegiados. De Lauretis, por sua vez, faz uma reflexão desde a semiótica da imagem cinematográfica, e conceitua neste marco às lésbicas como “sujeitos excêntricos”, capazes de lançar um olhar novo sobre o mundo. Na França, o primeiro grupo queer, o ZOO, formado em 1998, se inspira em Butler e trabalha a sua difusão e tradução ao francês.

judith-butler-1997-1-gerald-zoerner                              Judith Butler, filósofa pós-moderna e principal teórica queer.

Embora o movimento queer em si não se destaque por seu caráter militante ou de rua, tem um duvidável eco ideológico, por exemplo se medimos pela multiplicação das lésbicas que querem lutar com outras “minorias sexuais”, como o atestam as referências cada vez maiores a um movimento “LGBT” (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero ou Transexuais). Porém, existe uma forte crítica feminista, como a que expôe magistralmente Sheila Jeffreys, que assinala que a perspectiva queer, bastante influenciada por imaginários sexuais e sociais masculinos e sua concepção da “liberação sexual”, tem conotações profundamente individualistas e idealistas que deixam incólumes as bases materiais da exploração, em especial da exploração das mulheres. Como o escreve Barbara Smith:

“As e os ativistas queer trabalham sobre questões queer, e os temas do racismo, opressão sexual, e exploração econômica não parecem interessar-lhes, apesar do fato de que a maioria das pessoas queers sejam pessoas de cor, mulheres e de classe trabalhadora. Quando mencionam outras opressões ou outros movimentos, é para construir um paralelismo que sustente a validez dos direitos lésbicos e gays, ou para pensar em alianças com organizações ‘respeitáveis’ (mainstream). Construir coalições unificadas hoje, que desafiem o sistema e em última instância preparem o caminho para uma mudança revolucionária, simplesmente não é o que as e os ativistas queer têm em mente.”

Para concluir esta apresentação de diferentes linhas de pensamento lésbico, devo sublinhar que a realidade é muito mais complexa e que as influências recíprocas e as misturas ideológicas múltiplas fazem bastante difícil uma definição unívoca dos grupos e movimentos. Embora sem dúvida tenha ocorrido uma acumulação de força e uma aprofundação teórica e prática do movimento lésbico com o passar de mais de quatro décadas, cada corrente perde e ganha força em ritmos diferentes e, na atualidade, todas coexistem, às vezes em contexto de unificação ideológica, e de persistência de profundas diferenças políticas, que se originam tanto em realidades cotidianas bastante diferentes, como em utopias divergentes.

Hoje, o lesbianismo como movimento, e sobretudo como forma de vida, aflora por todas partes, cada vez mais complexo e variado. Possui — de forma mais ou menos aberta — lugares de sociabilidade e de diversão, espaços culturais e artísticos, uma importante literatura e meios de comunicação próprios, alguns espaços nas margens da instituição universitária, assim como redes políticas que se desenvolvem principalmente no marco de estratégias de visibilidade e de identidade. Essa tendência “comunitária” foi porém criticada, às vezes por seu caráter encerrador, às vezes como a expressão de um modelo gay por demais influenciado pelo movimento homossexual masculino, e outras vezes ainda como uma política reformista de institucionalização que leva à recuperação do movimento e à sua neutralização ou normalização.

parada-gay                                                         Parada Gay em São Paulo.    

A luta contra a Aids contribuiu para reforçar a organização das lésbicas, mas sobretudo muitas vezes as induziu a se aproximar novamente do movimento homossexual misto, no qual muitas vezes desaparece sua problemática própria. Em certos países ou cidades do Norte e do Sul que se contam com os dedos das mãos, foram conquistadas algumas legislações progressistas, que proíbem a discriminação por “orientação sexual” ou que reconhecem a união entre mulheres e concedem algumas das vantagens próprias da união heterossexual — embora os temas da adoção e da procriação seguem sendo problemáticos. Na França, o PACS (Pacto de União Civil) foi ganho pela pressão da luta homossexual mista — na qual se destacaram as lésbicas —, enquanto que a Coordenação Nacional Lésbica (feminista e não mista) propunha uma lei específica contra a lesbofobia. No México e no Brasil, entre outros, se seguem caminhos semelhantes. Se pode falar à respeito de conquistas, mas também se pode analisar como um progressivo processo de integração social, no marco de uma despolitização geral em um mundo cada vez mais individualista, capitalista e racista. A extensão da “cidadania” às lésbicas, aos gays, às mulheres, às pessoas negras ou indígenas pode ser vista como um objetivo de luta para a aprofundação da democracia, tanto como uma maneira por parte do sistema de integrar e tornar leais novas capas da sociedade a um projeto neoliberal em profunda crise de legitimidade. Em todo caso, essas evoluções não devem fazer esquecer o caráter profundamente radical, subversivo e transformador de algumas propostas políticas lésbicas. Como escreviam as lésbicas radicais de Nova Iorque em 1970: “A lésbica é a fúria de todas as mulheres concentrada até o ponto de explosão!”, ou a da lésbica negra Cheryl Clarke que afirma: “Ser lésbica em uma cultura tão supremacista-machista, capitalista, misógina, racista, homofóbica e imperialista como a dos Estados Unidos, é um ato de resistência — uma resistência que deve ser acolhida através do mundo por todas as forças progressistas”.

Acho mesmo que usam boa parte de teorias lésbicas, principalmente de negras, mulheres de cor e terceiro-mundistas que foram citadas, para endossar o conceito da “interseccionalidade”, que não passa de um dos métodos camuflados de tentarem desmantelar o feminismo e colocar todas mulheres numa “guilt-trip” e “revisão de privilégios” inúteis, em políticas de identidade e outras confusões. Usam a ideia das diferenças dentro do feminismo para desmantelar conceitos como os de sororidade e até mesmo a possibilidade das mulheres se articularem por meio da categoria política “mulher”.

Hoje, a feminista chilena Margarita Pisano nos interpela:

   “Sem repensar um movimento lésbico político e civilizatório, não poderemos desarticular o sistema. Sem um olhar crítico, não saberemos se é desde dentro do próprio movimento lésbico que estamos traindo nossas políticas e nossas potencialidades civilizatórias. Que custos teve essa sucessão de súplicas à maquinaria masculinista para que nos aceite e nos legitime?”

Finalmente, é preciso lembrar que em geral, o desenvolvimento do lesbianismo foi acompanhado dos avanços e retrocessos da situação das mulheres. Certamente, houve algumas evoluções favoráveis, mas também retrocessos profundos: a miséria e a exploração das mulheres aumentou mais que nunca na história, sobretudo nos países do Sul, as religiões patriarcais foram reforçadas consideravelmente e o militarismo guerreirista domina. Seria um grave erro esquecer que muitas mulheres no mundo não estamos livres nem felizes e que, em muitíssimos lugares e em especial longe das grandes cidades, o lesbianismo segue sendo tabu, reprimido, perseguido, duramente castigado, e pode inclusive ser pretexto para o simples e vil assassinato. Portanto, resta bastante luta por diante.

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Trecho do livro “Breve resenha de algumas teorias lésbicas” de Jules Falquet.

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