carol hanisch

O Pessoal é Político


Para este artigo eu procurei focar um aspecto comumente discutido no debate de Esquerda – a saber, “terapia” vs. “terapia e política”. Um outro nome para isto é “pessoal” vs. “político” e há outros nomes, eu suspeito, da forma como o debate foi se desenvolvendo pelo país. Eu ainda não tive a oportunidade de visitar o grupo de Nova Orleans, mas estive participando de grupos em Nova Iorque e em Gainesville por mais de um ano. Ambos os grupos foram chamados de grupos “pessoais” e de “terapia” por mulheres que se consideram “mais políticas”. Assim, devo falar sobre os supostos grupos de terapia por meio da minha própria experiência.

A própria palavra “terapia” é obviamente um mau uso do termo se levado à sua conclusão lógica. Terapia presume que alguém esteja doente e que haja uma cura para isso, por exemplo, uma solução pessoal. Eu fico realmente ofendida que se pense necessário que eu ou qualquer outra mulher precise de terapia, em primeiro lugar. Mulheres são confundidas, e não confusas! Precisamos mudar as condições objetivas, e não nos ajustar a elas. A terapia é um ajuste para sua escolha pessoal ruim.

Não fizemos muitas tentativas de resolver os problemas pessoais imediatos das mulheres no grupo. Nós selecionamos tópicos principalmente por meio de dois métodos: Em um grupo pequeno, é possível para nós nos revezarmos e trazermos perguntas para a reunião (como, “O que você prefere/ria, um bebê menina ou menino, ou nenhuma criança, e por quê?”, “O que acontece com o seu relacionamento se o seu companheiro ganha mais dinheiro do que você? E se ele ganha menos?”). Então passamos pela sala respondendo às questões a partir de nossas experiências pessoais. Dessa forma, todo mundo fala. No final da reunião, tentamos resumir e generalizar o que foi dito e a partir daí fazer as conexões.

Acredito que, neste ponto, e talvez por um longo tempo à frente, estas sessões analíticas são uma forma de ação política. Eu não vou a estas sessões porque eu preciso ou queira falar sobre meus “problemas pessoais”. Na verdade, eu preferiria não fazê-lo. Como mulher ativista, fui pressionada a ser forte, altruísta, voltada para os outros, sacrificadora, e, no geral, bastante no controle de minha própria vida. Admitir os problemas em minha vida é ser julgada fraca. Então eu quero ser uma mulher forte, em termos de Movimento, e não admitir que eu tenha quaisquer problemas reais para os quais eu não possa encontrar uma solução pessoal (exceto aqueles diretamente relacionados ao sistema capitalista). Neste ponto é uma ação política dizer as coisas como elas são, dizer o que eu realmente acredito sobre a minha vida ao invés do que sempre me foi dito para dizer.

Deste modo, o motivo para eu participar dessas reuniões não é para resolver qualquer problema pessoal. Uma das primeiras coisas que descobrimos nesses grupos é que problemas pessoais são problemas políticos. Não há soluções pessoais desta vez. Só há ação coletiva para uma solução coletiva. Eu fui, e continuo indo a essas reuniões porque adquiri uma compreensão política que toda a minha leitura, todas as minhas “discussões políticas”, toda a minha “ação política”, todos os meus quatro anos e pouco no movimento nunca me deram. Eu fui forçada a tirar os óculos cor-de-rosa e encarar a horrível verdade de quão deprimente minha vida é na condição de mulher. Eu estou adquirindo uma compreensão mais profunda de tudo, se comparado com a compreensão esotérica, à compreensão intelectual e sentimentos de noblesse oblige que eu tinha das lutas de “outras pessoas”.

Isto não é negar que essas sessões tenham pelo menos dois aspectos que são terapêuticos. Eu prefiro chamar esse aspecto de “terapia política” em oposição à terapia pessoal. O mais importante é livrar-se da auto-culpa. Você consegue imaginar o que aconteceria se mulheres, negros, trabalhadores (minha definição de trabalhador é a de qualquer um que tem de trabalhar para viver ao invés de aqueles que não precisam. Todas as mulheres são trabalhadoras.) parássemos de nos culpar pelas nossas tristes situações? Parece-me que todo o país precisa desse tipo de terapia. É o que o movimento negro tem feito do seu próprio jeito. Nós devemos fazer do nosso. Estamos apenas começando a deixar de nos culpar. Também sentimos que estamos pensando por nós mesmas pela primeira vez em nossas vidas. Como coloca o cartoon “Lilith”: “Estou mudando. Minha mente está se fortalecendo”. Aqueles que acreditam que Marx, Lênin, Engels, Mao e Ho tiveram a palavra final e “boa” no assunto, e que as mulheres nada têm a acrescentar vão, é claro, achar esses grupos uma perda de tempo.

Os grupos nos quais estive também não entraram em “estilos de vida alternativos” ou o que signifique ser uma mulher “liberada”. Chegamos logo à conclusão de que todas as alternativas são ruins sob as condições presentes. Se vivemos com ou sem um homem, comunitariamente, ou em casais ou sozinhas, se somos casadas ou não, se vivemos com outras mulheres, se optamos pelo amor livre, pelo celibato ou lesbianismo, ou qualquer combinação, somente há coisas boas e más sobre cada situação. Não há uma forma “mais liberada”, só há alternativas ruins.

Isto faz parte de uma das mais importantes teorias que estamos começando a articular. Nós a chamamos de “linha pró-mulher”. O que ela diz, basicamente, é que mulheres são pessoas. As coisas ruins que dizem sobre nós como mulheres são ou mitos (mulheres são tolas), táticas que mulheres usam para lutar individualmente (mulheres são cadelas), ou são na verdade coisas que queremos carregar para a nova sociedade e queremos que os homens compartilhem também (mulheres são sensíveis, emocionais). Mulheres enquanto classe oprimida agem por necessidade (agem de forma estúpida perante os homens), não por escolha. As mulheres desenvolveram técnicas diversas para a sua própria sobrevivência (parecer bonita e rir para pegar ou manter um emprego, ou um homem) que deveriam ser utilizadas quando necessário até o momento em que o poder de unidade possa tomar seu lugar. Mulheres são espertas por não lutarem sozinhas (assim como o são negros e trabalhadores). Não é pior estar em casa do que estar na correria interminável do mundo do trabalho. Ambos são ruins. Nós mulheres, assim como os negros, trabalhadores, devemos parar de nos culpar por nossos fracassos.

Levamos dez meses para chegarmos ao ponto de podermos articular essas questões e relacioná-las com as vidas de cada mulher. É importante do ponto de vista de que tipo de ação vamos fazer. Quando nosso grupo começou, passando pela opinião da maioria, nós teríamos ido às ruas nos manifestar contra o casamento, contra ter filhos, pelo amor livre, contra mulheres usarem maquiagem, contra serem donas-de-casa, pela igualdade sem o reconhecimento de diferenças biológicas, e sabe deus o que mais. Agora nós vemos todas essas coisas como o que chamamos de soluções pessoais. Muitas das ações tomadas pelos grupos de “ação” têm sido ao longo dessas linhas. As mulheres que fizeram aquela coisa anti-mulher no concurso Miss América foram aquelas que gritaram por ação sem teoria. As integrantes de um grupo querem estabelecer uma creche privada sem qualquer análise real do que poderia ser feito para melhorar a situação para as garotinhas, e muito menos qualquer análise de como essa creche aceleraria a revolução.

MISS AMERICA 09 07 196803
Isto não quer dizer, claro, que não devamos tomar ações. Deve haver boas razões pelas quais as mulheres no grupo não querem fazer nada no momento. Um motivo que eu consigo penar é que isso é tão importante para mim que eu quero ter certeza de que estamos fazendo da melhor maneira que conhecemos, e que esta é a ação “certa” da qual eu estou certa. Eu me recuso a sair e “produzir” para o movimento. Nós tivemos muito conflito no nosso grupo de Nova Iorque sobre fazer ou não a ação. Quando o protesto do Miss América foi proposto, não haviam dúvidas, nós queríamos fazê-lo. Eu penso que foi porque nós todas vimos como isso estava relacionado às nossas vidas. Nós sentimos que foi uma boa ação. Havia coisas erradas com a ação, mas a ideia básica estava lá.

Esta tem sido a minha experiência em grupos acusados de serem “terapia” ou “pessoais”. Talvez certos grupos estejam tentando fazer terapia. Talvez a resposta seja não suprimir o método de análise a partir de experiências pessoais em favor da ação imediata, mas descobrir o que pode ser feito para que isto funcione. Algumas de nós começamos a escrever uma vez um manual sobre isso e nunca passamos do sumário. Estamos trabalhando nisso de novo, e esperamos tê-lo publicado em um mês no máximo.

É verdade que todas nós precisamos aprender a melhor forma de tirar conclusões pelas experiências e sentimentos dos quais falamos e como estabelecer todos os tipos de conexões. Algumas de nós não têm feito um bom trabalho em comunicá-las às outras.

Uma coisa mais: Eu acho que devemos ouvir o que as supostas mulheres apolíticas têm a dizer – não para que possamos fazer um trabalho melhor organizando-as, mas porque juntas somos um movimento de massa. Eu acho que nós que trabalhamos tempo integral no movimento temos a tendência de nos tornarmos muito limitadas. O que está acontecendo agora é que quando mulheres de fora do movimento discordam de nós, nós presumimos que é porque elas são apolíticas, não porque pode ter algo de errado com o nosso pensamento. Mulheres têm deixado o movimento em massa. Os motivos óbvios é que estamos cansadas de sermos escravas sexuais e de fazer o trabalho sujo para os homens, cuja hipocrisia é tão evidente em sua postura política de libertação para toda as (outras) pessoas. Mas há muito mais coisa aí do que apenas isso. Eu não consigo articular isso ainda. Eu acho que mulheres “apolíticas” não estão no movimento por razões muito boas, e enquanto nós dissermos “você tem que pensar como nós e viver como nós para se juntar ao círculo encantado”, nós vamos falhar. O que estou tentando dizer é que existem coisas na consciência das mulheres “apolíticas” (eu as considero bastante políticas) que são tão válidas quanto qualquer consciência política que achamos que temos. Nós deveríamos compreender porque muitas mulheres não querem fazer ação. Talvez haja algo de errado com a ação ou com o porquê de estarmos fazendo ação ou talvez a análise de por que a ação é necessária não esteja suficientemente clara em nossas mentes.


Por Carol Hanisch, Women’s Liberation Movement, 1969.
Tradução livre. Texto original em inglês: http://carolhanisch.org/CHwritings/PIP.html

 

Anúncios