O Pessoal é Político


Para este artigo eu procurei focar um aspecto comumente discutido no debate de Esquerda – a saber, “terapia” vs. “terapia e política”. Um outro nome para isto é “pessoal” vs. “político” e há outros nomes, eu suspeito, da forma como o debate foi se desenvolvendo pelo país. Eu ainda não tive a oportunidade de visitar o grupo de Nova Orleans, mas estive participando de grupos em Nova Iorque e em Gainesville por mais de um ano. Ambos os grupos foram chamados de grupos “pessoais” e de “terapia” por mulheres que se consideram “mais políticas”. Assim, devo falar sobre os supostos grupos de terapia por meio da minha própria experiência.

A própria palavra “terapia” é obviamente um mau uso do termo se levado à sua conclusão lógica. Terapia presume que alguém esteja doente e que haja uma cura para isso, por exemplo, uma solução pessoal. Eu fico realmente ofendida que se pense necessário que eu ou qualquer outra mulher precise de terapia, em primeiro lugar. Mulheres são confundidas, e não confusas! Precisamos mudar as condições objetivas, e não nos ajustar a elas. A terapia é um ajuste para sua escolha pessoal ruim.

Não fizemos muitas tentativas de resolver os problemas pessoais imediatos das mulheres no grupo. Nós selecionamos tópicos principalmente por meio de dois métodos: Em um grupo pequeno, é possível para nós nos revezarmos e trazermos perguntas para a reunião (como, “O que você prefere/ria, um bebê menina ou menino, ou nenhuma criança, e por quê?”, “O que acontece com o seu relacionamento se o seu companheiro ganha mais dinheiro do que você? E se ele ganha menos?”). Então passamos pela sala respondendo às questões a partir de nossas experiências pessoais. Dessa forma, todo mundo fala. No final da reunião, tentamos resumir e generalizar o que foi dito e a partir daí fazer as conexões.

Acredito que, neste ponto, e talvez por um longo tempo à frente, estas sessões analíticas são uma forma de ação política. Eu não vou a estas sessões porque eu preciso ou queira falar sobre meus “problemas pessoais”. Na verdade, eu preferiria não fazê-lo. Como mulher ativista, fui pressionada a ser forte, altruísta, voltada para os outros, sacrificadora, e, no geral, bastante no controle de minha própria vida. Admitir os problemas em minha vida é ser julgada fraca. Então eu quero ser uma mulher forte, em termos de Movimento, e não admitir que eu tenha quaisquer problemas reais para os quais eu não possa encontrar uma solução pessoal (exceto aqueles diretamente relacionados ao sistema capitalista). Neste ponto é uma ação política dizer as coisas como elas são, dizer o que eu realmente acredito sobre a minha vida ao invés do que sempre me foi dito para dizer.

Deste modo, o motivo para eu participar dessas reuniões não é para resolver qualquer problema pessoal. Uma das primeiras coisas que descobrimos nesses grupos é que problemas pessoais são problemas políticos. Não há soluções pessoais desta vez. Só há ação coletiva para uma solução coletiva. Eu fui, e continuo indo a essas reuniões porque adquiri uma compreensão política que toda a minha leitura, todas as minhas “discussões políticas”, toda a minha “ação política”, todos os meus quatro anos e pouco no movimento nunca me deram. Eu fui forçada a tirar os óculos cor-de-rosa e encarar a horrível verdade de quão deprimente minha vida é na condição de mulher. Eu estou adquirindo uma compreensão mais profunda de tudo, se comparado com a compreensão esotérica, à compreensão intelectual e sentimentos de noblesse oblige que eu tinha das lutas de “outras pessoas”.

Isto não é negar que essas sessões tenham pelo menos dois aspectos que são terapêuticos. Eu prefiro chamar esse aspecto de “terapia política” em oposição à terapia pessoal. O mais importante é livrar-se da auto-culpa. Você consegue imaginar o que aconteceria se mulheres, negros, trabalhadores (minha definição de trabalhador é a de qualquer um que tem de trabalhar para viver ao invés de aqueles que não precisam. Todas as mulheres são trabalhadoras.) parássemos de nos culpar pelas nossas tristes situações? Parece-me que todo o país precisa desse tipo de terapia. É o que o movimento negro tem feito do seu próprio jeito. Nós devemos fazer do nosso. Estamos apenas começando a deixar de nos culpar. Também sentimos que estamos pensando por nós mesmas pela primeira vez em nossas vidas. Como coloca o cartoon “Lilith”: “Estou mudando. Minha mente está se fortalecendo”. Aqueles que acreditam que Marx, Lênin, Engels, Mao e Ho tiveram a palavra final e “boa” no assunto, e que as mulheres nada têm a acrescentar vão, é claro, achar esses grupos uma perda de tempo.

Os grupos nos quais estive também não entraram em “estilos de vida alternativos” ou o que signifique ser uma mulher “liberada”. Chegamos logo à conclusão de que todas as alternativas são ruins sob as condições presentes. Se vivemos com ou sem um homem, comunitariamente, ou em casais ou sozinhas, se somos casadas ou não, se vivemos com outras mulheres, se optamos pelo amor livre, pelo celibato ou lesbianismo, ou qualquer combinação, somente há coisas boas e más sobre cada situação. Não há uma forma “mais liberada”, só há alternativas ruins.

Isto faz parte de uma das mais importantes teorias que estamos começando a articular. Nós a chamamos de “linha pró-mulher”. O que ela diz, basicamente, é que mulheres são pessoas. As coisas ruins que dizem sobre nós como mulheres são ou mitos (mulheres são tolas), táticas que mulheres usam para lutar individualmente (mulheres são cadelas), ou são na verdade coisas que queremos carregar para a nova sociedade e queremos que os homens compartilhem também (mulheres são sensíveis, emocionais). Mulheres enquanto classe oprimida agem por necessidade (agem de forma estúpida perante os homens), não por escolha. As mulheres desenvolveram técnicas diversas para a sua própria sobrevivência (parecer bonita e rir para pegar ou manter um emprego, ou um homem) que deveriam ser utilizadas quando necessário até o momento em que o poder de unidade possa tomar seu lugar. Mulheres são espertas por não lutarem sozinhas (assim como o são negros e trabalhadores). Não é pior estar em casa do que estar na correria interminável do mundo do trabalho. Ambos são ruins. Nós mulheres, assim como os negros, trabalhadores, devemos parar de nos culpar por nossos fracassos.

Levamos dez meses para chegarmos ao ponto de podermos articular essas questões e relacioná-las com as vidas de cada mulher. É importante do ponto de vista de que tipo de ação vamos fazer. Quando nosso grupo começou, passando pela opinião da maioria, nós teríamos ido às ruas nos manifestar contra o casamento, contra ter filhos, pelo amor livre, contra mulheres usarem maquiagem, contra serem donas-de-casa, pela igualdade sem o reconhecimento de diferenças biológicas, e sabe deus o que mais. Agora nós vemos todas essas coisas como o que chamamos de soluções pessoais. Muitas das ações tomadas pelos grupos de “ação” têm sido ao longo dessas linhas. As mulheres que fizeram aquela coisa anti-mulher no concurso Miss América foram aquelas que gritaram por ação sem teoria. As integrantes de um grupo querem estabelecer uma creche privada sem qualquer análise real do que poderia ser feito para melhorar a situação para as garotinhas, e muito menos qualquer análise de como essa creche aceleraria a revolução.

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Isto não quer dizer, claro, que não devamos tomar ações. Deve haver boas razões pelas quais as mulheres no grupo não querem fazer nada no momento. Um motivo que eu consigo penar é que isso é tão importante para mim que eu quero ter certeza de que estamos fazendo da melhor maneira que conhecemos, e que esta é a ação “certa” da qual eu estou certa. Eu me recuso a sair e “produzir” para o movimento. Nós tivemos muito conflito no nosso grupo de Nova Iorque sobre fazer ou não a ação. Quando o protesto do Miss América foi proposto, não haviam dúvidas, nós queríamos fazê-lo. Eu penso que foi porque nós todas vimos como isso estava relacionado às nossas vidas. Nós sentimos que foi uma boa ação. Havia coisas erradas com a ação, mas a ideia básica estava lá.

Esta tem sido a minha experiência em grupos acusados de serem “terapia” ou “pessoais”. Talvez certos grupos estejam tentando fazer terapia. Talvez a resposta seja não suprimir o método de análise a partir de experiências pessoais em favor da ação imediata, mas descobrir o que pode ser feito para que isto funcione. Algumas de nós começamos a escrever uma vez um manual sobre isso e nunca passamos do sumário. Estamos trabalhando nisso de novo, e esperamos tê-lo publicado em um mês no máximo.

É verdade que todas nós precisamos aprender a melhor forma de tirar conclusões pelas experiências e sentimentos dos quais falamos e como estabelecer todos os tipos de conexões. Algumas de nós não têm feito um bom trabalho em comunicá-las às outras.

Uma coisa mais: Eu acho que devemos ouvir o que as supostas mulheres apolíticas têm a dizer – não para que possamos fazer um trabalho melhor organizando-as, mas porque juntas somos um movimento de massa. Eu acho que nós que trabalhamos tempo integral no movimento temos a tendência de nos tornarmos muito limitadas. O que está acontecendo agora é que quando mulheres de fora do movimento discordam de nós, nós presumimos que é porque elas são apolíticas, não porque pode ter algo de errado com o nosso pensamento. Mulheres têm deixado o movimento em massa. Os motivos óbvios é que estamos cansadas de sermos escravas sexuais e de fazer o trabalho sujo para os homens, cuja hipocrisia é tão evidente em sua postura política de libertação para toda as (outras) pessoas. Mas há muito mais coisa aí do que apenas isso. Eu não consigo articular isso ainda. Eu acho que mulheres “apolíticas” não estão no movimento por razões muito boas, e enquanto nós dissermos “você tem que pensar como nós e viver como nós para se juntar ao círculo encantado”, nós vamos falhar. O que estou tentando dizer é que existem coisas na consciência das mulheres “apolíticas” (eu as considero bastante políticas) que são tão válidas quanto qualquer consciência política que achamos que temos. Nós deveríamos compreender porque muitas mulheres não querem fazer ação. Talvez haja algo de errado com a ação ou com o porquê de estarmos fazendo ação ou talvez a análise de por que a ação é necessária não esteja suficientemente clara em nossas mentes.


Por Carol Hanisch, Women’s Liberation Movement, 1969.
Tradução livre. Texto original em inglês: http://carolhanisch.org/CHwritings/PIP.html

 

Acesso à Teoria Radical – O Ponto de Vista de uma Radfem Periférica


 

Nasci e cresci na periferia. Nunca passei por necessidades básicas devido a isso, mas a periferia da cidade é a realidade a qual cresci e a qual eu vivo.

A periferia é subestimada em sua produção cultural e em sua própria intelectualidade porque existem pessoas de diversos tipos, como em outras camadas sociais. Existem pessoas que gostam de estudar e ler e outras que não. Quantas vezes vemos pessoas de camadas sociais mais altas, que tiveram acesso a boas escolas, sendo completamente ignorantes em diversos assuntos?

Para quem não tem muita grana, ter acesso a livros de seu gosto pode ser mais complicado, devido ao alto valor dos livros e por não necessariamente ser um item de primeira necessidade. O acesso a escolas de qualidade, então, nem se fala.

Mas, quem não passa por grandes necessidades, e está a margem por uma questão geográfica apenas, há opções. Há o acesso a livros através de sebos e bibliotecas públicas e, hoje, a internet está bastante difundida nas periferias.

Isso não é um discurso meritocrático de “quem quer, consegue”. É uma longa introdução para dizer que eu fui uma dessas pessoas, que não teve acesso a uma escola de qualidade (apesar de ter tido alguns bons professores), mas que teve acesso ao menos à leitura, muito devido ao meu pai, que sempre gostou de ler e, OK, trabalhei em livrarias também, que tem acesso à internet. A questão de ler ou não, apesar da forte influência da classe social, e a questão cultural de não se valorizar muito o estudo e a leitura estão impregnadas em toda a sociedade (digo, do país, é a realidade que conheço).

E onde entra o feminismo nisso?

A longa introdução é para dizer que eu mesma subestimei a minha experiência todas as vezes em que, mesmo não concordando muito com coisas A ou B, achava OK o feminismo ser pausterizado para facilitar o entendimento das pessoas da periferia, como eu.

Subestimei o intelecto das meninas e mulheres da minha realidade quando, mesmo não me vendo como uma, apoiava coisas “nada a ver” no feminismo liberal só por ser o feminismo mais acessível para as meninas que estavam entrando.

Eu achava academicista algumas radicais pesarem tanto em teoria porque as meninas da minha realidade não teriam acesso a tanta leitura, ou ao inglês mesmo, pelo fato de boa parte da teoria não estar em português. Mas as coisas que eu não via eram: eu comecei a ler teoria com textos que as meninas traduziam, com blogs e textos que me mandavam. Ué, acho que as meninas com as quais eu me preocupava por não ter acesso podiam ler também, já que eu lia, se estávamos no mesmo contexto. A questão é que eu me preocupei mais com elitismo do que em difundir essa teoria (OK, não vou me martirizar, me preocupei com ambos), mesmo que uma pequena parte dela. Outra questão aqui é que se a academia fosse predominantemente radical, seria uma maravilha. E por que boa parte dessas autoras que não são traduzidas nem estão na academia? Backlash, não culpa do “elitismo” das radicais.

Hoje eu estou vendo os rumos que a desinformação tem tomado no feminismo. Mulheres sendo “rachadas” no próprio movimento devido muito à misoginia, mas muito à ignorância também.

Quantas pessoas têm demonizado o feminismo radical sem ter lido nada a respeito? Ou, de forma mentirosa, citado autoras totalmente fora de contexto? E pior, muitas mulheres baixando a cabeça pra isso por terem sido coagidas a não ler as nossas antecessoras.

Sim, hoje eu vejo de outra forma. Construir feminismo na rua, nas marchas, nos coletivos, nas ações políticas do dia a dia, é extremamente importante. Apesar de estar afastada de muitas dessas atividades devido a aspectos também sociais ligados a tempo e trabalho. Então, o que resta? A vida não é feita só de teoria, às vezes até nós mesmas nos vemos fora daqueles princípios que apoiamos. Ou até mesmo, podemos pensar alguns pontos de forma divergente da teoria que mais nos identificamos. Eu me vejo como uma feminista radical, apesar de ter pequenas divergências. Mas, enfim, até onde vai essa curva, fica para outra discussão. Mas: leitura importa. E o que persiste é: a ética feminista, independente do que você faça como feminista.

Valorizem o trabalho das mulheres que pensaram na nossa experiência antes de nós mesmas. Teoria é importante sim. E só com acesso a informação não veremos pontos tão caros ao feminismo serem distorcidos e usados de forma ignorante ou desonesta, ou fazendo-nos obrigadas a dar o braço a torcer. Ou, nas melhores das intenções, deixar os princípios do movimento serem pausterizados para que fossem acessíveis para todas, tornando-se nessa massa disforme que vemos hoje. Não subestimem suas irmãs.

Por Carina Prates.

Lésbicas em Revolta – Tremores e Arrepios na Supremacia Masculina


O desenvolvimento de políticas lésbicas-feministas como a base para a libertação das mulheres é nossa prioridade maior, este artigo contorna nossas idéias presentes. Em nossa sociedade que define todas pessoas e instituições para o benefício dos ricos, homens e brancos, a lésbica está em revolta. Em revolta porque ela define a si mesma nos termos das mulheres e rejeita as definições dos homens de como ela deve se sentir, agir, aparentar e viver. Ser uma lésbica é amar-se a si mesma, mulher, numa cultura que deprecia e despreza mulheres. A lésbica rejeita a dominação sexual/ política masculina, ela desafia seu mundo, sua organização social, sua ideologia e sua definição dela como inferior. Lesbianismo coloca a mulher em primeiro lugar enquanto a sociedade declara o macho supremo. Lesbianismo ameaça supremacia masculina ao seu núcleo. Quando politicamente consciente e organizado, é central em destruir nosso sistema sexista, racista, capitalista e imperialista.

LESBIANISMO É UMA ESCOLHA POLÍTICA

A sociedade masculina define lesbianismo como um ato sexual, o que reflete a visão limitada das mulheres: eles apenas nos pensam em termos de sexo. Eles também dizem que lésbicas não são mulheres reais, logo, uma mulher real é aquela que é fodida por homens. Nós dizemos que uma lésbica é uma mulher a qual o senso de si e de energias, incluindo energias sexuais, centram em torno de mulheres – ela é identificada com/ como/ a mulher (mulher-identificada). A mulher-identificada compromete a si mesma às outras mulheres para suporte político, emocional, físico e econômico. Mulheres são importantes pra ela. Ela é importante pra si mesma. Nossa sociedade demanda que o comprometimento das mulheres seja reservado aos homens.

A lésbica, a mulher-identificada, compromete a si mesma às mulheres não apenas como uma alternativa aos relacionamentos opressivos homem-mulher, mas primariamente porque ela ama mulheres. Seja conscientemente ou não, pelas suas ações, a lésbica reconheceu que dando suporte e amor a homens sobre mulheres, perpetua o sistema que a oprime. Se mulheres não fizerem um comprometimento de umas com as outras, que inclua amor sexual, nós negamos a nós mesmas o valor e o amor tradicionalmente dados aos homens. Nós aceitamos nosso status de classe secundária. Quando mulheres dão energias primárias a outras mulheres, então é possível concentrar-se plenamente em construir um movimento para nossa libertação.

Lesbianismo é, então, mais do que uma preferência sexual, é uma escolha política. É político porque relações entre homens e mulheres são essencialmente políticas, elas envolvem poder e dominância. Uma vez que lésbicas rejeitam ativamente esses relacionamentos e escolhem mulheres, ela desafia o sistema político estabelecido.

LESBIANISMO, POR SI SÓ, NÃO É O SUFICIENTE

É óbvio, nem todas as lésbicas são conscientemente mulheres-identificadas, nem são todas comprometidas em achar soluções comuns para a opressão que elas sofrem como mulheres e lésbicas. Ser uma lésbica é parte do desafio à supremacia masculina, mas isso não é o fim. Para a lésbica ou mulher heterosexual, não há solução individual para a opressão.

A lésbica pode pensar que ela é livre, uma vez que ela escapa da opressão pessoal dos relacionamentos homem/ mulher. Mas para a sociedade, ela ainda é uma mulher, ou pior, uma lésbica visível. Nas ruas, no trabalho, nas escolas, é tratada como inferior e está sob a custódia dos caprichos e poder masculino. (Eu nunca ouvi falar de um estuprador que parou no ato porque sua vítima era lésbica). Essa sociedade odeia mulheres que amam mulheres e então, a lésbica, que escapa à dominância masculina em seu lar privado, recebe-a em dobro das mãos da sociedade masculina: ela é assediada, isolada e calada ao máximo. Lésbicas precisam se tornar feministas e lutar contra a opressão das mulheres, assim como feministas precisam se tornar lésbicas se elas esperam pelo fim da supremacia masculina.

A sociedade estadunidense encoraja soluções individuais, atitudes apolíticas e reformismo para nos manter aquém de revolta política e afastados do poder. Homens que comandam e machos esquerdistas que desejam governar tentam despolitizar o sexo e as relações entre homens e mulheres de forma a nos prevenir de atuar para pôr fim à nossa opressão e desafiar seu poder. Assim que a questão da homossexualidade se torna pública, reformistas a definem como uma questão privada de “com quem você dorme” no intento de retroceder nosso entendimento das políticas de sexo. Para a feminista lésbica, essa não é uma questão privada, isso é uma matéria política de opressão, dominação e poder. Reformistas oferecem soluções que mantém o poder nas mãos do opressor. A única maneira que faz com que pessoas oprimidas coloquem fim a sua opressão é arrebatando o poder: pessoas cujo poder depende da subordinação de outras não irão voluntariamente parar de oprimir. Nossa subordinação é a base do poder masculino.

SEXISMO É A RAIZ DE TODA A OPRESSÃO

A primeira divisão de trabalho, na pré-história, foi baseada em sexo: homens caçavam, mulheres construíam as vilas, cuidavam das crianças e roçavam. Mulheres coletivamente controlavam a ilha, a linguagem, a cultura e as comunidades. Homens eram aptos a conquistar mulheres com armas que desenvolveram para caçar quando se tornou nítido que mulheres estavam liderando uma existência mais estável, pacífica e desejável. Nós não sabemos exatamente como essa conquista tomou lugar, mas está visível que o imperialismo original foi dos homens sobre as mulheres: o homem clamando o corpo feminino e seus serviços como seu território
(ou propriedade).

Tendo garantido a dominação sobre mulheres, homens continuaram seu modelo de supressão de pessoas, agora nas bases da tribo, raça e classe. Apesar de que tenha havido numerosas batalhas sobre classe, raça e nação passados três mil anos, nenhuma trouxe a libertação das mulheres. Enquanto essas outras formas de opressão devem ser terminadas, não há razão para acreditar que nossa libertação virá com a destruição do capitalismo, racismo ou imperialismo de hoje. Mulheres serão livres apenas quando se concentrarem em derrotar a supremacia masculina.

Nossa guerra contra a supremacia masculina envolve, entretanto, atacar as dominações atuais baseadas em classe, raça e nação. Como lésbicas que estão subtraídas de qualquer grupo, seria suicídio perpetuar essas divisões feitas por homens entre nós mesmas. Nós não temos privilégios heterossexuais, e quando nós publicamente assertarmos nossa lesbianidade, aquelas de nós que o fizeram perderam muitos de nossos privilégios de classe e raça: muitos de nossos privilégios como mulheres são concedidos a nós por nossos relacionamentos com homens (pais, maridos, namorados) a quem agora rejeitamos. Isso não significa que não há chauvinismo racista ou classista em nós, mas nós precisamos destruir essas divisões remanescidas de comportamento privilegiado
entre nós como o primeiro passo acerca de sua destruição em nossa sociedade. Raça, classe e opressões nacionais advêm de homens, servem aos interesses da elite da classe de homens reinantes, e não têm lugar em uma revolução de mulheres-identificadas.

LESBIANISMO É A AMEAÇA BÁSICA À SUPREMACIA MASCULINA

Lesbianismo é a ameaça à base ideológica, política, pessoal e econômica da supremacia masculina. As lésbicas ameaçam a ideologia da supremacia masculina por destruir a mentira da inferioridade, fraqueza, passividade da mulher, e por negar a necessidade “inata” de mulheres por homens (até mesmo para procriação se a ciência da clonagem for desenvolvida).

A independência lésbica e recusa a suportar um homem mina o poder pessoal que homens exercem sobre mulheres. Nossa rejeição do sexo heterossexual desafia a dominância masculina em sua forma mais individual e comum. Nós oferecemos a todas mulheres algo melhor que submissão à opressão pessoal. Nós oferecemos o início do fim da supremacia masculina coletiva e individual. Desde que homens de todas as raças e classes dependem de suporte e submissão femininos para trabalhos práticos e sentimento de onipotência, nossa recusa a submeter-nos irá forçar alguns a examinar seus comportamentos sexistas, a quebrar com seus próprios privilégios destrutivos sobre outros humanos e a lutar contra esses privilégios nos outros homens. Eles terão que construir novos sentidos de ser que não dependam de oprimir mulheres e aprender a viver em estruturas sociais que não os dê poder sobre ninguém.

Heterosexualidade separa mulheres umas das outras, ela faz mulheres definirem a si mesmas através de homens, ela força mulheres a competir umas contra as outras por homens e os privilégios que advém por intermédio deles e da sua posição social. Sociedade heterossexual oferece às mulheres poucos privilégios como compensações por elas abrirem mão de sua liberdade: por exemplo, mães são respeitadas e “honradas”, esposas ou amantes são socialmente aceitadas e dadas alguma segurança econômica e emocional, uma mulher toma proteção física nas ruas quando ela está com seu homem, etc. Os privilégios dão às mulheres heterossexuais um motivo pessoal e político para manter o status quo.

A lésbica não recebe qualquer desses privilégios heterossexuais, uma vez que ela não aceita a demanda dos homens sobre ela. Ela tem poucos interesses velados em manter o sistema político presente uma vez que todas instituições – igreja, estado, mídia, saúde, escolas – trabalham para mantê-la abaixo. Se ela compreender sua opressão, ela não tem nada a ganhar suportando a América macha, branca, rica, e muito a ganhar ao lutar para mudar isso. Ela está menos inclinada a aceitar soluções reformistas para a opressão das mulheres.

Economias são uma parte crucial da opressão de mulheres, mas nossa análise de relações entre capitalismo e sexismo não estão completas. Nós sabemos que a teoria econômica marxista não considera suficientemente o papel de mulheres ou lésbicas, e nós estamos presentemente trabalhando nessa área.

De qualquer forma, como um início, alguma das formas como lésbicas ameaçam o sistema econômico são claras: nesse país, mulheres trabalham para homens para sobreviver, no trabalho e em suas casas. A lésbica rejeita essa divisão de trabalho nas suas raízes. Ela recusa a ser uma propriedade de um homem, a submeter-se ao sistema de trabalho mal pago de dona de casa e criação de crianças. Ela rejeita a família nuclear como a unidade básica de produção e consumo em uma sociedade capitalista.

A lésbica é também uma ameaça ao trabalho porque ela não é a mulher passiva/ turno-parcial trabalhadora com quem o capitalismo conta para fazer o trabalho enfadonho e ser parte de um suprimendo laboral acumulativo. Sua identidade e suporte econômico não vêm de homens, então seu trabalho é crucial e ela se preocupa com as condições, salários, promoções e status. Capitalismo não pode absorver largo número de mulheres demandando emprego estável, salários decentes, e recusando aceitar exploração do trabalho tradicional. Nós não entendemos ainda os efeitos totais dessa insatisfação crescente de trabalho que temos. Isso é, de qualquer forma, claro que uma vez que mulheres se tornam mais intencionadas em tomar controle de suas vidas, vão procurar maior controle sobre seus trabahos por incrementar as tensões do capitalismo e incrementar o poder das mulheres para mudar o sistema econômico.

 

An activist holds a sign reading "Lesbianism is sexual and political rebellion" during a march in support of lesbian rights in Mexico City

LÉSBICAS DEVEM FORMAR SEU PRÓPRIO MOVIMENTO PARA REAGIR À SUPREMACIA MASCULINA

Lesbianismo feminista, como a ameça mais básica à supremacia masculina, toma parte da análise do sexismo da Libertação das Mulheres e dá à ela força e direção. A Libertação das Mulheres carece de direção agora porque ela tem falhado em encarar classe e raça como diferenças reais nos comportamentos de mulheres e necessidades políticas. Enquanto mulheres heteros vejam Lesbianismo como uma questão privada, elas contém o desenvolvimento de políticas e estratégias que poderiam por um fim à supremacia masculina e elas dão a homens uma desculpa pra não lidar com seu sexismo.

Ser uma lésbica significa acabar com sua identificação, sua aliança, sua dependência, e seu suporte à heterossexualidade. Significa acabar com seu envolvimento no mundo masculino tanto que você se une às mulheres, individualmente e coletivamente, na luta para acabar com sua opressão. Lesbianismo é a chave para a libertação e apenas mulheres que cortarem seus laços com o privilégio masculino podem ser acreditadas por permanecerem sérias na luta contra dominância masculina. Aquelas que se mantém ligadas a homens, individualmente ou em teoria política, não se permitem jamais pôr mulheres em primeiro lugar. Não é que mulheres heterossexuais sejam más ou não se importem com suas irmãs. Isso é porque a vera essência, definição, e natureza de heterossexualidade é homens em primeiro. Toda mulher experienciou aquela desolação quando sua irmã põe seu homem em primeiro lugar ao final de um confronto: heterossexualidade demanda que ela o faça. Enquanto mulheres ainda se beneficiarem da heterossexualidade, receberem seus privilégios e segurança, elas irão em alguma hora ter de trair suas irmãs, especialmente as irmãs lésbicas que não recebem esses privilégios.

Mulheres na Libertação de Mulheres têm entendido a importância de ter encontros e outros eventos apenas para mulheres. Tem sido claro que lidando com homens divide-nos e drena nossas energias e que não é o papel do oprimido explicar ao opressor a sua opressão. Mulheres também têm visto que coletivamente, homens não vão lidar com seu sexismo até que eles sejam forçado a isso. Mesmo assim, muitas dessas mulheres continuam mantendo relacionamentos primários com homens individualmente e não compreendem porque lésbicas acham isso opressivo. Lésbicas não podem crescer politicamente ou pessoalmente em uma situação que nega a base de nossas políticas: que lesbianismo é político, que heterossexualidade é crucial para a manutenção da supremacia masculina.

Lésbicas devem formar seu próprio movimento político na ordem de crescer. Mudanças que vão ter mais do que efeitos simbólicos em nossas vidas serão guiadas por lésbicas mulheres-identificadas que entenderam a natureza de nossa opressão e que estão por isso mesmo em posição de acabá-la.


A Coletiva The Furies (As Fúrias), fundada em Washington D.C no verão de 1971, foi um coletivo de lésbicas separatistas. O grupo reunia lésbicas feministas que se dedicavam a uma vida comum e a uma publicação lesbiana-feminista de mesmo nome onde davam voz às idéias do separatismo lésbico. O jornal era dedicado a fazer emergir uma análise e uma perspectiva teórica lésbica-feminista própria. No primeiro número em janeiro de 1972, a colaboradora e membra da coletiva, Ginny Berson, concebe que “O sexismo é a raíz de todas opressões, e a opressão de mulheres e lésbicas não terminará por meio da destruição do capitalismo, racismo e imperialismo. O lesbianismo não é uma questão de preferência sexual, e sim uma escolha política que cada mulher deve fazer se ela quer fazer-se mulher-identificada e, por consequência, terminar com a supremacia masculina”.

A Coletiva The Furies também foi um projeto de vida coletiva, tendo um espaço próprio que se encontrava em Washington na rua “11th SE”, e foi, nos anos setenta, um dos grupos de vivência comunal mais conhecidos no ambiente político da Liberação Gay. As doze mulheres da coletiva constituíram um experimento que reunia lésbicas das mais diversas origens sociais e econômicas vivendo e trabalhando juntas, fazendo realidade no dia a dia suas visões políticas e sociais. A maior parte da coletiva escrevia para o jornal, que era distribuído em todo país.

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O artigo “Lésbicas em Revolta” (originalmente “Lesbians in Revolt”) é a tradução do escrito de uma das membras, Charlotte Bunch, para o jornal The Furies, publicado no volume 1 em janeiro de 1972.

“Revolução Sexual”, retorno ao gênero, pós-modernismo e despolitização


Os anos 80 são, nos Estados Unidos, marcados pela crise econômica e o reforçamento do moralismo mais conservador, simbolizado pelo desenvolvimento do movimento “pró-vida” (anti-abortista, portanto também anti-feminista e extremamente lesbofóbico). É a época do auge do movimento lésbico (feminista, separatista ou radical), e ao mesmo tempo de uma “segunda revolução sexual” que desde este mesmo movimento lésbico, se pode ler mais precisamente como um retrocesso teórico e prático, com um retorno ao pensamento masculino-gay e uma releitura despolitizante do conceito de gênero.

No interior do movimento feminista, estala um forte debate, cujo ponto álgido é a Conferência anual de Barnard College de 1982, que se propunha analisar a “política sexual” do movimento. Por um lado, se desenvolve uma linha “liberal” em torno à sexualidade, com reflexões como a de Gayle Rubin. Segundo sua análise, o problema radica na hierarquização das sexualidades, situando-se arbitrariamente no ápice a heterossexualidade reprodutiva e monogâmica, enquanto que as sexualidades “desviadas” são discriminadas e condenadas. Desde este ponto de vista, o importante é conseguir uma aliança de todas as “minorias sexuais” que de uma ou outra maneira subvertem a heterossexualidade. Esta análise reduz uma vez mais o lesbianismo à sexualidade, e a sexualidade lésbica a uma sexualidade “diferente” entre muitas. Ou seja, se desvincula totalmente o questionamento político global da sociedade originalmente proposto desde o lesbianismo feminista, radical ou separatista. Indo ainda mais longe nesta direção “pró-sexo” liberal, algumas lésbicas como Pat Califia e o grupo S/M Samois não duvidam em reivindicar abertamente o sadomasoquismo lésbico como uma maneira de empoderar-se por meio da sexualidade. Numerosas lésbicas e feministas denunciaram vigorosamente esta tendência como anti-feminista, por basear-se na tradicional erotização patriarcal da violência e da dominação. Audre Lorde, por exemplo, afirma: “Como mulher pertencente a uma minoria, sei perfeitamente que a dominação e a submissão não são temas próprios do dormitório.” Sem recusar nem a sexualidade, nem a busca do prazer, nem o erotismo, com ela, várias autoras consideram que voltar a reger-se novamente por padrões de conduta sexual típicamente masculinos — e gays — apresentados como o “verdadeiro sexo quente”, demonstra uma queda da auto-estima das lésbicas, que há anos se propunham muito mais uma busca sexual diferente, e congruente com suas aspirações feministas. Colocam que o uso da pornografia e prostituição, embora sejam “lésbicas”, somente reforçam um imaginário patriarcal e multiplica as ambições da indústria do sexo, conduzindo por fim à exploração de mulheres e lésbicas por outras lésbicas.

A esta primeira tendência, se une outra, com origens distintas — não a análise da sexualidade senão que do gênero — mas com bastante concordâncias: o pensamento queer, popularizado pela norte-americana Judith Butler e a italiana estabelecida nos Estados Unidos Teresa de Lauretis. Teresa de Lauretis inventou o termo “teoria queer”, porém o abandonou e denunciou que o mesmo agora representa uma tendência neoliberal. Com forte influência pós-modernista e do pensamento gay e psicanalítico, Butler afirma que o gênero seria uma “performance”, algo fluido, modificável e múltiplo, o que permitiria às mulheres “jogar” sobre um registro identitário variado e modificável. As e os “transgêneros”, as e os travestis, as e os transsexuais, os drags-kings e as drags-queens, e inclusive as e os heterossexuais dissidentes viriam a romper a trágica bipolaridade dos gêneros e a questionar sua “naturalização”. Existem algumas confluências entre parte do movimento queer e as contribuições das lésbicas e feministas não-brancas, na medida em que ambas correntes possuem interesse na crítica pós-modernista do sujeito “universal” do pensamento “moderno”, que esconde exclusivamente os interesses dos homens brancos, heterossexuais e economicamente privilegiados. De Lauretis, por sua vez, faz uma reflexão desde a semiótica da imagem cinematográfica, e conceitua neste marco às lésbicas como “sujeitos excêntricos”, capazes de lançar um olhar novo sobre o mundo. Na França, o primeiro grupo queer, o ZOO, formado em 1998, se inspira em Butler e trabalha a sua difusão e tradução ao francês.

judith-butler-1997-1-gerald-zoerner                              Judith Butler, filósofa pós-moderna e principal teórica queer.

Embora o movimento queer em si não se destaque por seu caráter militante ou de rua, tem um duvidável eco ideológico, por exemplo se medimos pela multiplicação das lésbicas que querem lutar com outras “minorias sexuais”, como o atestam as referências cada vez maiores a um movimento “LGBT” (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgênero ou Transexuais). Porém, existe uma forte crítica feminista, como a que expôe magistralmente Sheila Jeffreys, que assinala que a perspectiva queer, bastante influenciada por imaginários sexuais e sociais masculinos e sua concepção da “liberação sexual”, tem conotações profundamente individualistas e idealistas que deixam incólumes as bases materiais da exploração, em especial da exploração das mulheres. Como o escreve Barbara Smith:

“As e os ativistas queer trabalham sobre questões queer, e os temas do racismo, opressão sexual, e exploração econômica não parecem interessar-lhes, apesar do fato de que a maioria das pessoas queers sejam pessoas de cor, mulheres e de classe trabalhadora. Quando mencionam outras opressões ou outros movimentos, é para construir um paralelismo que sustente a validez dos direitos lésbicos e gays, ou para pensar em alianças com organizações ‘respeitáveis’ (mainstream). Construir coalições unificadas hoje, que desafiem o sistema e em última instância preparem o caminho para uma mudança revolucionária, simplesmente não é o que as e os ativistas queer têm em mente.”

Para concluir esta apresentação de diferentes linhas de pensamento lésbico, devo sublinhar que a realidade é muito mais complexa e que as influências recíprocas e as misturas ideológicas múltiplas fazem bastante difícil uma definição unívoca dos grupos e movimentos. Embora sem dúvida tenha ocorrido uma acumulação de força e uma aprofundação teórica e prática do movimento lésbico com o passar de mais de quatro décadas, cada corrente perde e ganha força em ritmos diferentes e, na atualidade, todas coexistem, às vezes em contexto de unificação ideológica, e de persistência de profundas diferenças políticas, que se originam tanto em realidades cotidianas bastante diferentes, como em utopias divergentes.

Hoje, o lesbianismo como movimento, e sobretudo como forma de vida, aflora por todas partes, cada vez mais complexo e variado. Possui — de forma mais ou menos aberta — lugares de sociabilidade e de diversão, espaços culturais e artísticos, uma importante literatura e meios de comunicação próprios, alguns espaços nas margens da instituição universitária, assim como redes políticas que se desenvolvem principalmente no marco de estratégias de visibilidade e de identidade. Essa tendência “comunitária” foi porém criticada, às vezes por seu caráter encerrador, às vezes como a expressão de um modelo gay por demais influenciado pelo movimento homossexual masculino, e outras vezes ainda como uma política reformista de institucionalização que leva à recuperação do movimento e à sua neutralização ou normalização.

parada-gay                                                         Parada Gay em São Paulo.    

A luta contra a Aids contribuiu para reforçar a organização das lésbicas, mas sobretudo muitas vezes as induziu a se aproximar novamente do movimento homossexual misto, no qual muitas vezes desaparece sua problemática própria. Em certos países ou cidades do Norte e do Sul que se contam com os dedos das mãos, foram conquistadas algumas legislações progressistas, que proíbem a discriminação por “orientação sexual” ou que reconhecem a união entre mulheres e concedem algumas das vantagens próprias da união heterossexual — embora os temas da adoção e da procriação seguem sendo problemáticos. Na França, o PACS (Pacto de União Civil) foi ganho pela pressão da luta homossexual mista — na qual se destacaram as lésbicas —, enquanto que a Coordenação Nacional Lésbica (feminista e não mista) propunha uma lei específica contra a lesbofobia. No México e no Brasil, entre outros, se seguem caminhos semelhantes. Se pode falar à respeito de conquistas, mas também se pode analisar como um progressivo processo de integração social, no marco de uma despolitização geral em um mundo cada vez mais individualista, capitalista e racista. A extensão da “cidadania” às lésbicas, aos gays, às mulheres, às pessoas negras ou indígenas pode ser vista como um objetivo de luta para a aprofundação da democracia, tanto como uma maneira por parte do sistema de integrar e tornar leais novas capas da sociedade a um projeto neoliberal em profunda crise de legitimidade. Em todo caso, essas evoluções não devem fazer esquecer o caráter profundamente radical, subversivo e transformador de algumas propostas políticas lésbicas. Como escreviam as lésbicas radicais de Nova Iorque em 1970: “A lésbica é a fúria de todas as mulheres concentrada até o ponto de explosão!”, ou a da lésbica negra Cheryl Clarke que afirma: “Ser lésbica em uma cultura tão supremacista-machista, capitalista, misógina, racista, homofóbica e imperialista como a dos Estados Unidos, é um ato de resistência — uma resistência que deve ser acolhida através do mundo por todas as forças progressistas”.

Acho mesmo que usam boa parte de teorias lésbicas, principalmente de negras, mulheres de cor e terceiro-mundistas que foram citadas, para endossar o conceito da “interseccionalidade”, que não passa de um dos métodos camuflados de tentarem desmantelar o feminismo e colocar todas mulheres numa “guilt-trip” e “revisão de privilégios” inúteis, em políticas de identidade e outras confusões. Usam a ideia das diferenças dentro do feminismo para desmantelar conceitos como os de sororidade e até mesmo a possibilidade das mulheres se articularem por meio da categoria política “mulher”.

Hoje, a feminista chilena Margarita Pisano nos interpela:

   “Sem repensar um movimento lésbico político e civilizatório, não poderemos desarticular o sistema. Sem um olhar crítico, não saberemos se é desde dentro do próprio movimento lésbico que estamos traindo nossas políticas e nossas potencialidades civilizatórias. Que custos teve essa sucessão de súplicas à maquinaria masculinista para que nos aceite e nos legitime?”

Finalmente, é preciso lembrar que em geral, o desenvolvimento do lesbianismo foi acompanhado dos avanços e retrocessos da situação das mulheres. Certamente, houve algumas evoluções favoráveis, mas também retrocessos profundos: a miséria e a exploração das mulheres aumentou mais que nunca na história, sobretudo nos países do Sul, as religiões patriarcais foram reforçadas consideravelmente e o militarismo guerreirista domina. Seria um grave erro esquecer que muitas mulheres no mundo não estamos livres nem felizes e que, em muitíssimos lugares e em especial longe das grandes cidades, o lesbianismo segue sendo tabu, reprimido, perseguido, duramente castigado, e pode inclusive ser pretexto para o simples e vil assassinato. Portanto, resta bastante luta por diante.

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Trecho do livro “Breve resenha de algumas teorias lésbicas” de Jules Falquet.